Responsável por 43,3% das exportações brasileiras e pela criação de 100 mil empregos diretos, a produção agrícola tem verificado, ano após ano, incremento nos subsídios que recebe do governo federal. E talvez esteja aí um dos grandes problemas a serem enfrentados pelo próximo (ou próxima) presidente da República.
Enquanto o orçamento do crédito rural cresceu 335,2% entre 2002 e 2010, o valor bruto da produção brasileira expandiu-se apenas 7% no mesmo período, segundo dados do Ministério da Agricultura, da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e do Banco Central. À primeira vista, pode-se dizer que qualquer investimento em financiamento compensa o aumento da produção - seja de qual tamanho for. De acordo com especialistas, no entanto, há alguns problemas por trás da máquina de crédito agrícola que precisam ser urgentemente solucionados pelo governo.
Dívidas antigas
O primeiro deles é a inadimplência. Em meio à aquecida demanda atual por financiamento de novos tratores e colheitadeiras, os bancos enfrentam significativos atrasos em operações antigas, o que coloca em risco seus resultados financeiros.
Estima-se que os produtores pagaram apenas 3% de todas as dívidas renegociadas até agora. Não há dados precisos porque os bancos não revelam os números dessa inadimplência. Porém, sabe-se que esse passivo é composto de dívidas antigas de programas de investimento, como Moderfrota e Finame agrícola, que foram roladas em safras anteriores por causa da crise de renda e de efeitos climáticos severos no campo.
O Banco Central, que já fez reuniões sobre o tema, está preocupado em garantir as operações desses bancos. Entre os principais repassadores de crédito rural estão o Banco do Brasil, o BNB e o Bradesco. O BNDES, administrador dos programas de investimento, também busca uma saída.
A situação é um pouco mais preocupante quando os dados do Banco Central apontam que 22% da carteira de R$ 12,5 bilhões do programa Moderfrota foram provisionados pelos bancos. O levantamento indica que R$ 2,7 bilhões estão engessados como reserva para cobrir eventuais calotes.
Dinheiro represado
"O Brasil já avançou em muitos aspectos nos últimos anos, mas ainda há problemas e o mais negativo deles é o de eficiência dos governos", afirma Carlos Arruda, professor de inovação e competitividade da Fundação Dom Cabral. "Com dinheiro represado pelos bancos para cobrir calotes, é claro que não adianta aumentar o valor do financiamento porque ele simplesmente não chega ao produtor. Ou chega muito caro".
No Mato Grosso, celeiro brasileiro da soja, a situação é assoladora. As dívidas, de acordo com entidades produtoras, estão na casa de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões e a inadimplência no pagamento das parcelas já chega a 50%. "Não sabemos mais qual o montante exato da dívida", diz Ricardo Tomczyk, presidente do Sindicato Rural de Rondonópolis. O problema é tão grande que a situação fugiu do controle do produtor. Nem mesmo ele sabe quanto deve."
A inadimplência, segundo Tomczyk, se deve à perda de rentabilidade do produtor nos últimos anos. "A safra passada foi a mais cara da história. O preço de venda foi relativamente bom, a produção foi boa, mas os custos engoliram a margem e o produtor mais uma vez entra em uma safra nova sem dinheiro", afirma. "As dívidas estão se acumulando cada vez mais, enquanto o governo se nega a negociar."
Mais recursos, menor resultado
O segundo problema está diretamente atrelado a essa questão. Com as sucessivas intempéries que arrasam as colheitas, está cada vez mais difícil conseguir arrancar do campo a produtividade que consiga cobrir os custos de financiamento. Na comparação entre custo e resultado, há sete anos o Ministério da Agricultura aplicou R$ 24,7 bilhões para incentivar uma produção que valia R$ 146,5 bilhões. Na safra atual, foi preciso um volume de dinheiro cinco vezes maior para incentivar uma produção que teve um aumento em seu valor de pouco mais de R$ 12 bilhões.
"O governo acredita que a solução do campo está no Tesouro, e não na Embrapa", diz o professor Carlos Arruda, indicando que uma possível saída para esta crise está em mais investimento em pesquisas agrícolas. Dados preliminares do Ministério de Ciência e Tecnologia, no entanto, indicam que o montante direcionado à pesquisa no ano passado não deve ter superado os R$ 5 bilhões.