Tia Cida: fé que dura décadas
Aos 97 anos de idade, dona de uma lucidez impressionante e energia admirável, Apparecida de Oliveira Santos poderia muito bem ser um símbolo da Festa em Louvor a São Benedito, a tradicional Festa de Maio. Freqüentadora assídua do evento e participante ativa dos atos religiosos no Largo de São Benedito, Tia Cida, como é conhecida, nasceu na Vila de Eleutério no vigésimo quinto dia do mês de agosto de 1913. "Nasci em uma casa muito próxima à divisa do Estado de São Paulo com Minas Gerais. Quase nasci mineira", brincou Tia Cida ao receber a reportagem do Gazeta no saguão do Hotel São Paulo, tradicional estabelecimento da Rua Orestes Pucci, onde sua presença no mês de maio é tão tradicional quanto a própria festa que motiva sua viagem: Tia Cida deixou o município em 1926, aos 13 anos de idade. E o fato de ela se deslocar da capital paulista todo ano, há mais de 80 anos, a torna digna de ainda mais respeito. Filha de Felizardo de Oliveira e Maria Rosa de Oliveira, Tia Cida contou que devido às dificuldades econômicas enfrentadas em Eleutério, resolveram tentar a vida na região da Santa Cruz, bem próximo do local que abriga a Festa de Maio. "Meus avôs moravam na Rua General Carneiro, então saímos de Eleutério e viemos morar na cidade, com eles. Mas como meu pai não conseguia emprego, fomos para a fazenda de café do Ernestino Cintra", lembrou. Mudou-se para São Paulo primeiramente com uma tia - também freqüentadora assídua da Festa do 13 - e depois a família toda se juntou a eles. "Eu estudava no Colégio Santa Mônica, na Rua Augusta e morava muito longe. Apesar da grande distância, caminhava a pé todo dia entre o colégio e minha casa" contou Tia Cida, com uma capacidade incrível de citar datas, nomes e endereços. Na Escola Técnica Feminina, deu início ao curso de corte, bordado e costura. Como sua tia não costumava perder a Festa de Maio um só ano, Tia Cida tornou-se sua companheira no evento desde criança. "Minha tia não deixava de vir para a Festa, e eu vinha com ela. Quando eu fiz 15 anos, ela me colocou na Irmandade de São Benedito", contou. De lá pra cá, Tia Cida não perdeu uma só edição do evento. Em 1980 voltou a morar no município, onde permaneceu até 1989, quando retornou a São Paulo. Voltando à sua juventude, Tia Cida revela que, após anos costurando para fábricas de roupas do Brás, tradicional bairro paulistano, iniciou um curso de Turismo na então recém fundada Faculdade Ibero Americana de Letras e Ciências Humanas (atual Centro Universitário Anhanguera de São Paulo), formando-se com a primeira turma em março de 1972. Foi aí que Tia Cida passou a unir o útil ao agradável. "Comecei a organizar grupos de fiéis para participar dos eventos alusivos a São Benedito. Além da Festa de Itapira, também levo as pessoas para eventos em cidades como Sorocaba, Tietê, Itu, Porto Feliz, entre outras", frisou. O grupo que chegou ao Hotel São Paulo na terça-feira era formado por 14 pessoas que têm Tia Cida como guia turística. A eles, na quinta-feira, juntaram se outros dois grupos, que juntos totalizam cerca de 70 pessoas. "É que nem todos são aposentados e podem vir já no começo da semana, então eles só vêm no dia 13 e já voltam embora", explicou Tia Cida, que coordena toda a excursão. Questionada sobre o que motiva tamanho entusiasmo com a Festa de São Benedito em Itapira, Tia Cida afirmou que tudo é motivado pela grande fé e devoção ao santo. "Afinal, a fé não tem fronteiras, transporta montanhas", finalizou. Com uma história de vida impressionante, recheada de perdas de entes queridos e uma infância e juventude marcada pelas dificuldades financeiras, Tia Cida é um exemplo a ser seguido. Com uma alegria denunciada pelo sorriso constante, jeito simples que não consegue esconder sua sabedoria e experiência, e dona de um semblante tranqüilo, Tia Cida caminha rumo aos 100 anos com uma rara tenacidade que a fez enfrentar muitos desafios nesses 97 anos de vida. Sobre a proximidade do centenário de sua existência, Tia Cida anunciou: "'tô no rumo".